
Isto não cola mais! Na dança contemporânea a “cola” não está com nada
29/11/2008
Luciana Ribeiro |
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Luciana Ribeiro faz uma análise da dança contemporânea em Goiás
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Luciana Ribeiro |
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A dança em Goiânia ainda está em busca de sua afirmação como área de conhecimento e, principalmente como realidade profissional artística. Ainda sofre com a quase ausência de estudos teóricos e da reflexão crítica sobre seu fazer, principalmente dentro das escolas específicas de formação. Infelizmente isto causa sérios danos para o seu desenvolvimento, principalmente nos dias de hoje e no que se apresenta como dança contemporânea.
Na década de 1980, tivemos um cenário frutífero de formação e produção artística. Houve um “boom” de escolas e academias de dança que provocou uma relação afirmativa de concorrência. Estas procuravam dialogar com o cenário nacional da dança através do intercâmbio com professores e coreógrafos. As produções, mesmo sendo realizadas dentro das academias, como a maioria no Brasil nesta época, tinham um caráter quase profissional, acompanhadas de roteiros, trilha sonora, cenário, convidados, programas, sendo enfatizado um enredo mais adulto que se colocava como o resultado mais artístico daquele espaço de formação. Goiânia viveu um momento de efervescência que a colocava em destaque nos festivais e mostras nacionais e em completa coerência com o cenário de dança existente no eixo Rio-São Paulo e que ecoava em todo o Brasil.
Entretanto, a necessidade de se falar, refletir, escrever e estudar dança explodiu na década de 1990, explicitando uma fragilidade da área, principalmente nos seus bastidores. A formação em dança era assistemática e realizada, em sua grande maioria, em espaços não-formais. Não havia muita reflexão e, muito menos produção teórica sobre o ensino da dança, sobre metodologias e técnicas. Klauss Vianna problematizou muito bem estas questões em seu livro “A dança”, lançado em 1990, com destaque inclusive no Jornal “O Popular” de Goiânia, em outubro de 1990. Foi uma das primeiras publicações em dança que, apesar de seu caráter biográfico, questionou e refletiu sobre dança, fugindo de ser somente uma descrição neutra e descontextualizada da mesma. Ele foi um mestre importantíssimo na constituição deste espaço pedagógico para a dança. Tem uma frase sua que explicita muito bem a crise vivida pela dança e que refletiu no que chamamos de dança contemporânea: “não decore os passos, aprenda o caminho”.
Esta frase ainda tem muito sentido quando falamos de dança em Goiânia e que gera uma crise na produção local, principalmente quando a colocamos em diálogo com o cenário nacional, diferentemente do que tínhamos na década de 1980. A reflexão, contextualização e pesquisa em dança se tornaram parâmetros delineadores da produção contemporânea em dança. E isto acabou gerando um paradoxo muito grande, pois desta forma, quando a dança se mostra como uma “escola”, com passos e estética muito fechados, prontos para serem “imitados”, ela se apresenta como a própria negação da postura contemporânea de dança. E isto ainda está muito presente nas apresentações de dança em Goiânia que buscam “imitar” uma certa “dança contemporânea” achando que assim estão produzindo como tal. Se na década de 1980, imitar e criar em cima de passos específicos era aonde a dança queria chegar, a realidade atual pede outra postura que acaba exigindo outros espaços de formação e produção, onde imitação sem contextualização não cabem mais. Apesar de identificarmos a presença de alguns grupos de dança em Goiânia desvinculados de academias e com uma postura mais artística, poucos são os trabalhos de dança que fogem da mera (re)produção de passos descolados de investigação e criação cênica.
Para conseguirmos dar conta da realidade contemporânea da dança e, principalmente da frase de Klauss Vianna, de 1990, precisamos compreender que o quê estamos mais carecendo é de espaços que reflitam sobre os caminhos que existem, porque dança contemporânea é isso: primeiro é saber que existem vários caminhos, e segundo é saber que o passo é gerado pelas intencionalidades e não o contrário. Não existe somente uma intencionalidade gerada do passo único e acabado. Isto não cola mais, ou melhor, a “cola” hoje em dia não está com nada. Vamos pensar sobre isso...
Luciana Ribeiro é professora do curso de Edução Física da Universidade do Estado de Goiás e coordenadora do grupo Por quá
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Comentários nesta matéria:
Roberto Rodrigues disse em 12/02/09 | 05:04
Bacana a reflexão!
Necessitamos de muitas reflexões acerca da dança em Goiânia e acredito que esses espaços de pesquisas podem, aos poucos sendo construídos por nós, professores, coreógrafos, bailarinos e, acima de tudo acho que só podemos fazer isso COLETIVAMENTE. Assim vamos, aos poucos, ajudando-nos uns aos outros. E dança é isso!
Adriano Bittar
disse em 11/02/09 | 11:48
Obrigado por essa reflexão, Luciana. O seu texto me instigou bastante! Acredito nesse fazer diferente em dança e temos um potencial humano e cultural bastante amplo no centro-oeste que pode fazer toda uma diferença! Viva a dança!
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