A arte que vem das ruas
12/11/2008
Alessandra Alves
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Ilustrador Mateus Dutra mistura sua arte urbana ao caos da jovem metrópole goiana

Painel criado por Mateus Dutra durante apresentação no Centro Cultural Martim Cererê

Quem anda pelas ruas de Goiânia dificilmente deixa de observar o grande número de intervenções artísticas espalhadas pela cidade. A arte urbana, uma das mais representativas correntes da arte contemporânea,  está presente em muros, placas, pontes, postes e nos mais inusitados pontos, misturada ao caos gerado pelo trânsito desordenado de carros e pessoas, além da variedade de construções que formatam nossa jovem metrópole.

Graffitis, estêncils, stickers. Para alguns, com um olhar mais apurado, uma forma de expressão artística. Para outros, simplesmente ação de vândalos. Para os artistas de rua, um suporte para disseminação da arte. Mateus Dutra, 28, há nove anos deixa sua marca nas ruas de Goiânia e nas cidades por onde passa. “Eu acho que a rua é um suporte tão legítimo quanto os outros. É ao mesmo tempo um espaço democrático e subversivo. O fato de um artista expor suas imagens na rua não deixa de ser um questionamento ao sistema, apesar de no meu caso, eu não fazer disso um ato de panfletagem”, analisa. 

A arte das ruas é considerada pela maioria dos artistas como uma forma de trabalho anônimo, porém, que se relaciona diretamente com o público. Mateus é um desenhista, um rabiscador, sempre em busca do estabelecimento de um diálogo entre sua arte e a realidade urbana, que segundo ele, vai muito além do graffiti. “Eu não venho do universo do graffiti. Eu gosto do desenho, de desenhar, de gibis, cartuns. Fui conhecendo, me desenvolvendo, curtindo e me direcionei para a rua, que no meu caso não está relacionada à subversão. Meu inconsciente é sempre permeado por referências, que às vezes, nem eu mesmo consigo detectar”, explica.

A aproximação entre a arte urbana e a acadêmica é latente. Em todo o mundo, galerias de arte se abrem para esse tipo de trabalho. “Aqui em Goiânia, a arte urbana é muito nova. Não é uma coisa legítima, não é absorvida pelas galerias. Não sei se isso é pauta na academia, entre os pensadores de arte, mas eu não vejo essa aproximação deles”, questiona.

Entretanto, seguindo esse movimento histórico de aceitação da arte em todas as suas vertentes, a tendência é que, mais cedo ou mais tarde, a arte urbana seja valorizada enquanto linguagem artística. O próprio Mateus, já fez participações em eventos em galerias, apesar de ainda não ter realizado nenhuma exposição individual. “Está em processo, para o próximo ano. Não tenho dificuldade em relação a isso. O que eu tenho é um certo desapego em relação ao meu trabalho. Eu gosto de divulgar meu trabalho na rua”, assume. Espaços alternativos também se abrem para esse tipo de arte, como é o caso do projeto 5ªtiva, realizado no Centro Cultural Martim Cererê, que além de DJs e bandas, apresenta todas as quintas-feiras, trabalhos de artistas goianos.

Para isso, Mateus acredita que os artistas devam sair, mostrar suas expressões em outros lugares, não apenas aqui. Essa movimentação acrescenta novas referências, gera uma aproximação com o que está sendo feito em outros mercados e permite a realização de uma “avaliação” do trabalho. “Eu acho que a crítica goianiense não legitima um trabalho. Ainda sou otimista em relação à cidade, as pessoas. Os meios de comunicação começaram a perceber esse movimento. Entretanto, as pessoas que trabalham com arte em Goiás precisam ser meio ‘multimídias’. Fazer várias coisas, atuar em várias vertentes, para conseguirem se estabelecer aqui”, constata.

Outro ponto relevante é a falta de hábito do goianiense de consumir cultura, que ainda é vista como uma atividade de elite. Mesmo pessoas com alto poder aquisitivo demonstram ter outras prioridades, não pensam em consumir arte como nos grandes centros ou acreditam que a cultura de qualidade no Brasil está concentrada apenas nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. 

Há algum tempo, artistas de rua começaram a se organizar, a formatar projetos, a se aproximar do poder público. O resultado dessa mudança de atitude pode ser visto por toda a cidade, em intervenções urbanas como as pinturas das pontes da Marginal Botafogo e na Rua 10, no Setor Universitário.

 

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