Poetas em serenata
29/11/2008
Brasigóis Felício
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Crônica do escritor goiano Brasigóis Felício

“São demais os caminhos desta vida/ para quem tem paixão”, Também pode ir ao psiquiatra (ou ao terreiro de umbanda) quem tem um amor escaldante por uma mina, ou teve a infelicidade de pegar um caminhão de segunda mão. O que geralmente sucede, a quem foi flechado por Cupido, e rói e se despedaça de apaixonite aguda, é o ser amoroso cair e reincidir em situações de ridículo – e sobre o batido tema já se firmou jurisprudência: é quase impossível estar-se apaixonado por alguém sem dar vexame. “Ame e dê vexame”, do alto de sua sabedoria de doutor psi e ser amoroso, o terapeuta Roberto Freire. “Todas as cartas de amor são ridículas. E se não forem ridículas podem ser qualquer coisa, menos cartas de amor”. 

Corriam os anos 70. Eu e o poeta Gabriel Nascente, como legítimos e juramentados “bardos das virgens loucas”, - e depois, com os avanços nos costumes, rebaixados a “bardos das virgens poucas”, em matéria de insanidade e prosopopéia poética só não fazíamos rasgar dinheiro – até porque não o tínhamos em espécie, sendo matéria de ambição, ou de louca esperança, a não ser quando desovávamos uma nova “obra prima” na praça, e tratávamos de impingi-la aos amigos de sempre. Pois, ao contrário do que se propala, nem só de brisas e flautas doces vivem os vates, em seus vãos e patéticos esforços para não serem considerados seres de inutilidade pública. Em uma de nossas incursões lítero-românticas de bardos a vagar pelos páramos interioranos da goianidade, arranjamos duas namoradinhas em Morrinhos. 

Como de hábito, mal fomos apresentados às musas e ninfas, e já fomos ficando apaixonados de ganir para a lua, como lobos do planalto. Um dia, em que passamos a tarde inteira bebendo cerveja, no bar do Abdala ( uma das primeiras cervejarias dignas do nome, abertas no comecinho da avenida 85), resolvemos ir de motocicleta, para ver nossas namoradinhas. Eu e o Gabé, a bordo de uma Yamaha 50 CC, de propriedade o meu parceiro de investidas líricas e sentimentais, partimos na boquinha da noite, sem capacete ou blusão de couro, “na tora”, como se diz hoje.

Sem lenço e sem documento, e principalmente sem habilitação, contaríamos com a sorte, para não sermos barrados no posto de fiscalização, se lá tivéssemos a graça de chegar com vida. Para nossa sorte, chegamos inteiros, se bem que entanguidos de um frio siberiano, que combatíamos com um litro de conhaque presidente, que eu segurava firmemente em minha mão direita, de vez em quando dando uma golada. Quando chegamos a Morrinhos (Morraes City para os íntimos) nossas musas já estavam à nossa espera, no Bar Presidente, também já devidamente “enluaradas”.
 
De outra feita, inventamos de fazer uma serenata à namorada do Gabriel, que era filha do Senador Biotônico Besteira. Namorada vírgula, pois só o poeta namorava, e sua musa não lhe dava a mínima. Inconformado, o poeta declarou-lhe um “amor abobadado”, no sentido de abóboda celestial, e não o de ser bobo. Mal chegamos à casa da musa do vate e eu, que não sou de cantar nem em banheiro, já fui esgoelando músicas impróprias à sagrada família, alusivas à boêmia de Nelson Gonçalves: “Boêmia/ aqui me tens de regresso/ e suplicando te peço/ a minha nova inscrição./ Voltei, pra rever/ os amigos que um dia/ eu deixei a chorar de alegria/ me acompanha o meu violão”.
 
Enquanto eu abria o peito canoro, cantando a recaída do Nelson na boêmia, o poeta Gabriel ia esgoelando seus poemas favoritos: “Estou sozinho, Drummond/ em um país de oitenta milhões de frustrados/”. Terminado o assassinato da canção “A volta do boêmio”, ataquei de “A Deusa vencida”, tentando arranjar fôlego para um canhestro dó de peit “Deusa/ de amor e flor de sonho/ guarda/ meu coração tristonho/ negra/ ficou a primavera/ sorriso de quimera/ estrela vespertina.../”. Encorajado por minha performance, que seria gongada aos primeiros acordes, em qualquer programa de calouro, o poeta esgoelava: “Agora que meu coração/ virou consultório do mundo/ concedo audiência:/ quem chega primeiro é Hitler/ dando coice na humanidade”.
 
Estávamos nisto, botando os bofes para fora, a ver se a ninfa do bardo Gabé abriria a janela, para agradecer a serenata, quando sai dos fundos um homem de capote, com uma arma na mão “Moço, agradeço muito a fuzarca, mas o pessoal da casa tá de viagem... a casa tá em reforma, só eu escutei a serenata”. Assustados e com cara de cachorro que fez pum na igreja, subimos na moto do poetinha e saímos dali a toda velocidade, na direção do bar do Salerno, onde afogaríamos as mágoas e a imensa decepção, tomando mais algumas saideiras. Tempo de amar, tempo de dar vexame e cometer besteiras... 

 

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